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Como o Conceito Bíblico de Deus me Afeta PDF Imprimir E-mail

CB

Prof. Marcelo Correia e Silva

Nos últimos 11 anos, trabalhei num ambiente acadêmico. O “objeto” de estudo, na verdade, era uma “pessoa” = o próprio Deus! Por diversas vezes na tarefa de ensinar sobre Deus ou tentar “explicar” Deus, eu exclamei como Paulo, o apóstolo: “Ó profundidade da riqueza, tanto de sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutável são os seus caminhos” (Rm 11.33). 

Foi preciso bem pouco tempo para que, na minha carreira de professor de teologia, eu começasse a orar como orava o grande escritor A.W.Tozer: “Ò Senhor Deus Todo-Poderoso; Não o Deus dos filósofos e dos sábios, mas o Deus dos profetas e apóstolos, e, acima de tudo, Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; será que poderei expressar a Ti, sem culpa? Os que não te conhecem poderão invocar-Te de forma diferente de quem Tu és, adorando assim, não a Ti, mas a uma criatura de sua própria imaginação; portanto, ilumina as nossas mentes para que te conheçamos como Tu és, a fim de que possamos amar-Te perfeitamente, e louvar-Te de modo digno. Em nome de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.” (A.W.Tozer Mais Perto de Deus).


Embora a minha limitação em compreender Deus tenha ficado tão evidente, a importância de pensar corretamente em Deus amadureceu em meu coração. De fato, homens tementes a Deus, que dedicaram suas vidas para ensinar a sã doutrina, concordaram em dizer que o conceito que temos de Deus determina nossa saúde espiritual e a da igreja.

Um desses homens foi R.C.Sproul. Ele escreveu: “Para mim, a maior questão que a igreja cristã enfrenta ao nos aproximarmos do século XXI, é o caráter de Deus”, e “A não ser que entendamos como Deus é, nada mais na Bíblia fará sentido”. Outro foi o próprio Alden Wilson Tozer. Ele escreveu: “Se pudéssemos extrair de qualquer pessoa uma resposta completa à pergunta ‘O que lhe vem à mente quando você pensa em Deus?’, poderíamos predizer com certeza o futuro espiritual dessa pessoa”.

No seu famoso livro Mais Perto de Deus, A. W. Tozer sugeriu cinco razões por que é importante pensarmos corretamente em Deus:
  • porque só assim pensaremos corretamente em nós mesmos,
  • porque determina a qualidade da nossa adoração,
  • porque determina o nosso estilo de vida,
  • porque nos livra da “idolatria mental”,
  • porque evita a decadência espiritual da Igreja.
Mas onde encontraremos um conceito correto de Deus? Na filosofia? Nas cabeças dos bilhões de habitantes do planeta terra? Ou no contato com extra-terrestres? Não!!! Somente a própria revelação escrita de Deus, que é a Bíblia, pode nos dar um conceito correto de Deus! Quero destacar seis conceitos bíblicos a respeito de Deus e mostrar como esses conceitos deveriam afetar nossas vidas, pois conhecer a Deus é vivenciar Deus. Conhecer a Deus não é encher a cabeça de informações sobre Deus mas encher o coração do caráter de Deus.

DEUS É DEUS

O termo teológico para a grandeza de Deus é TRANSCENDÊNCIA. Diz um dicionário de teologia que “a declaração de que Deus é transcendente significa que Ele está ‘acima’ do mundo e antecede a criação”. Quanto Deus se apresentou e comissionou Moisés para voltar ao Egito e liderar a libertação do povo de Israel, Ele se revelou a Moisés como o Grande Eu Sou. Esse termo expressa a magnitude de Deus. Ele é. Deus é Deus – isso parece uma redundância óbvia, mas de fato é a expressão da singularidade de Deus como Ser Supremo e Todo-Poderoso.


Não há ninguém igual a Deus. Era isso que Isaías esperava ouvir em resposta à sua pergunta em Is 40.18: “Com quem comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele?”.

  • Deus é incomparável!
  • Deus é Eterno (nunca teve princípio e nunca terá fim – sempre existiu).
  • Deus é Infinito!
  • Deus é autoexistente! A famosa e perturbadora pergunta da criança – “Mãe, Pai – Quem fez Deus?” – confunde a cabeça de seres criados que tiveram um ponto histórico de início de existência. A realidade de Deus é atemporal. Ele não teve início. Ele existe eternamente.
  • Deus é autossuficiente! Ele não precisa de nada e de ninguém fora dEle mesmo. Deus não tem necessidades.

Como o conceito da grandeza de Deus me afeta? A grandeza de Deus realça a minha pequenez e consequentemente deveria me tornar humilde. A humildade é a capacidade de avaliar quem realmente sou. É por isso que A. W. Tozer disse que pensar corretamente em Deus nos ajuda a pensar corretamente em nós mesmos.

A pergunta que fiz a mim mesmo durante todos esses anos de “professor de Deus” foi a seguinte: Qual é o perfil de uma pessoa que realmente conhece a Deus? Creio que essa pessoa, invariavelmente será humilde.
  •     A perfeição de Deus mostra a minha imperfeição.
  •     O poder de Deus dá uma noção exata da minha fraqueza.
  •     O “mistério” de Deus denuncia a limitação da minha mente.

A grandeza de Deus gera humildade, mas também gera coragem. Isso pode parecer contraditório, mas de fato não é. A coragem é o produto da confiança em um Deus Todo-Poderoso. Quando temos um conceito correto da majestade e do poder de Deus, então nos enchemos de coragem para enfrentar os desafios mais difíceis e para superar nossas próprias limitações. Lembremos das palavras do jovem Davi, diante do ameaçador gigante Golias: “Tu vens contra mim com espada, e com lança, e com escudo; eu, porém, vou contra ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado” (1Sm 17.45).

Aquele que enxerga a grandeza de Deus, ganha coragem. Mas também se enche de esperança. A esperança é a confiança em Deus direcionada para o futuro. Para aqueles que enxergam a grandeza de Deus, não há “casos perdidos”. Isso não é simples otimismo ou pensamento positivo. É convicção no caráter de Deus e na Sua grandeza.

DEUS É PESSOAL

Isso significa que, embora Deus seja infinitamente maior do que nós, Ele também é próximo e acessível. O termo teológico para essa proximidade de Deus é imanência. Diferentemente do panteísmo, segundo o qual Deus e o mundo são um, sendo Deus a ‘alma’ do mundo, a teologia cristã ensina que Deus está constantemente envolvido com a criação, sem confundir-se com ela nem deixar de ser divino. Como Isaías descreve, “Deus que é Santo e Sublime e habita a eternidade, habita também com o contrito e abatido de espírito” (Is 57.15). Deus criou a recém-descoberta Super Terra – o planeta batizado de G 581c, que fica a 20 anos-luz da terra. Mas Ele também conhece a necessidade mais íntima de cada um de nós.


A pessoalidade de Deus deveria ter um tremendo impacto sobre nossas vidas. Uma pessoa que conhece o Deus Pessoal da Bíblia é uma pessoa também acessível. Se eu entendo pelas Escrituras que Deus é tangível – que Ele sente, que Ele interage e Ele é sensível – isso deveria me tornar mais humano, mais sensível e mais acessível! Ainda que eu não seja extrovertido por natureza, a atitude de alguém que realmente conhece a Deus é marcada por acessibilidade, abertura e sensibilidade. Pense nisso!

DEUS É RELACIONAL

Deus sempre existiu num perfeito e amoroso relacionamento entre as pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É a chamada Trindade, uma palavra que não aparece na Bíblia, mas significa que Deus é uma única essência na qual coexistem três pessoas divinas. É por isso que a decisão de criar o homem é registrada em Gênesis 1.26 no plural − “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança” - embora seja uma declaração de Deus.


Ainda que a doutrina da Trindade seja um mistério da fé cristã, ela é absolutamente fundamental para explicar a nossa existência e para proporcionar a salvação ao homem pecador. Hollywood não se guia por princípios cristãos, mas demonstrou muito bem as implicações da doutrina da Trindade no filme de Tom Hanks, O Náufrago. O ser humano não consegue viver isolado, porque ele foi criado à imagem de um Deus relacional. Nossa capacidade de amar vem da natureza de Deus que sempre existiu em amoroso e perfeito relacionamento.

Quais as implicações para a minha vida? Eu devo ter em alta consideração as pessoas. Devo ser amável com todos. Devo ter um profundo respeito por todo ser humano, ainda que muitos não me agradem. Fico espantado com o nosso potencial para discriminar, para nos expressarmos ferinamente com as pessoas (muitas vezes em tom de brincadeira), para ignorarmos certas pessoas (crianças, pobres, feios etc). Quem conhece a Deus segundo o conceito bíblico, inevitavelmente se torna uma pessoa simpática, receptiva, amável, gentil.

DEUS É CRIADOR

A Bíblia não foi escrita para provar que Deus criou o mundo e tudo o que existe. Ela simplesmente declara esse fato. O primeiro versículo da Bíblia faz essa declaração contundente: “No princípio, criou Deus o céu e a Terra” (Gn 1.1). E a partir daí, Deus é apresentado por toda a Bíblia como o Criador – Aquele que fez todas as coisas aparecerem do nada pelo poder de Sua palavra. O Deus que os atenienses não conheciam, foi apresentado pelo apóstolo Paulo como o Deus que “...fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra...” (At 17.24).


Quando reconhecemos a Deus como o Criador de tudo e portanto o Senhor de tudo, isso deve nos levar ao temor, à submissão, à adoração, à obediência. Não há como reconhecer que tudo veio de Deus e ao mesmo tempo viver como bem entendemos. O fato de Deus ser o Criador prende nossa vida a Ele de maneira absoluta.

DEUS É SUSTENTADOR

Diferentemente do Deísmo – um movimento racionalista que afirma que Deus Criou o mundo, mas o abandonou e não se envolve ativamente nele – a Bíblia diz que Deus é sustentador. Paulo apresentou o Deus Criador aos atenienses, mas disse que Ele também é o sustentador de tudo o que criou...”pois Ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais” (At 17.25).


Deus não é só aquele que criou do nada, mas Ele também preserva, sustenta e se envolve com tudo o que criou. “Nele tudo subsiste”, escreveu Paulo aos filipenses (1.17). Deus mantém o universo em funcionamento e nada ocorre fora de Seu controle. A história bíblica é um registro fiel das intervenções de Deus no mundo.

A consciência de que Deus não é só a fonte, mas também o meio de nossa existência, deveria nos tornar totalmente dependentes dEle. E a expressão mais básica da dependência de Deus é a oração, é recorrer constantemente a Ele, é busca refúgio, orientação, forças nEle. Quando Jesus disse que Seus discípulos “não poderiam fazer nada sem Ele” (Jo 15.5), Ele os estava desafiando a uma vida de total dependência e de total apego a Ele. “Permanecei em mim...”, Ele disse, “...e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo se não permanecer na videira, assim nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim”.

DEUS É CONSUMADOR

Não devemos confundir consumador com consumidor, como infelizmente muitos fazem. Muitos anunciam um Deus consumidor, que só quer tirar o dinheiro das pessoas. A Bíblia revela que Deus é o consumador de todas as coisas, ou seja, Ele é o fim, o alvo de tudo.


Paulo resumiu muito bem os diversos conceitos de Deus em Romanos 11.36 quanto escreveu: “Porque dEle (Criador) e por meio dEle (Sustentador) e para Ele (Consumador) são todas as coisas. A Ele pois, a glória eternamente. Amém”. Aos Colossenses, Paulo escreveu: “Tudo foi criado por meio dEle e para Ele” (Cl 1.16).

Se eu entendo a verdade bíblica a respeito de Deus, minha vida precisa necessariamente se tornar um culto vivo a Deus. Eu devo “viver de modo digno do Senhor, para o Seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus.” (Cl 1.10). O único estilo de vida coerente para alguém que admite que Deus é o alvo de tudo, é a consagração, o serviço e o culto. Nas palavras de Paulo aos coríntios, que discutiam entre si questões éticas, “quer comais, ou bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (10.31).

E ENTÃO, COMO O CONCEITO BÍBLICO DE DEUS ME AFETA?
O conceito bíblico de Deus implica uma transformação de vida. É impossível conhecer a Deus e permanecer o mesmo.

 

 
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